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quarta-feira, 3 de abril de 2013

IFCS

14 de fevereiro de 2006. Não me lembro ao certo se essa foi a data da minha matrícula na UFRJ ou a minha filiação à União da Juventude Socialista. Em todo caso, os dois eventos aconteceram bem próximos, e, não à toa, se confundem em termos de importância na minha vida.
Conheci a UJS quando estava no terceiro ano do Ensino Médio num grande ato de coragem de camaradas que fizeram uma fala no pátio do Colégio Bahiense, um colégio privado que nunca esteve aberto à organização do Movimento Estudantil. Fui convidado a uma plenária que se deu na mesma tarde do extinto (ainda bem!) vestibular da UFRJ. Não me filiei naquele momento, mas pela primeira vez senti que meus interesses menos individuais sobre a política, o mundo não faziam de mim um alienígena como eu me sentia perante os meus colegas de turma, ao conversar com Sergio Duarte, vulgo Serginho, que mais à frente seria um camarada de militância.
Bom, voltando à vaca fria, eu conheci o grande universo que é o IFCS, vulgo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, através do mundo da política. Diogo, o grande camarada grande, dizia que o IFCS continha 17 correntes políticas e meia, uma vez que os nazistas que pichavam as paredes permaneciam na clandestinidade. E eu, calouro-militante da tão odiada e almejada UJS, comecei a conhecer e me relacionar com as figuras destas 17 correntes através da política, e, da mesma forma, com os amigos da minha turma.
A condição de calouro também foi descobridora. Há um certo desprendimento forçado nos rituais de passagem que foram o trote e o Churracs. O juramento do calouro, tão cuidadosamente elaborado por Daniel Iliescu, teve de ser quebrado.
Lembro-me bem também dos muitos meses que passei nas tardes no pátio do IFCS lendo A Ideologia Alemã, de Karl Marx,  sempre à espera de Flavinha e Gusta para algumas explicações. O envolvimento com a política e a teoria marxista me transformaram de um admirador da esquerda e simpatizante do socialismo em um militante com uma visão de mundo distinta.
Tudo isto me leva a crer que essa fase me levou a transformar curiosidades em convicções, e me levar a me posicionar diante do mundo. O moleque tímido de Jacarepaguá passava a entrar em contato com o universalismo e o cosmopolitismo tanto da academia quanto da política.
Entrei em contato também com a intolerância e a tolerância. O movimento estudantil e as aulas eram grandes demonstrações de intolerância, no que diz respeito à divergência de ideias. No entanto era grande a tolerância com as potencialidades humanas, ou ao menos era um exercício.
Porém o fascínio com a política era inversamente proporcional ao interesse pelo curso. Natural. Estranho seria se uma carreira tão marcada pelo exercício da crítica não permitisse aos estudantes criticar ela própria. Nisto meu curso foi se atrasando, ao passo que isso me fazia de chacota frente aos amigos. Por que me importar? Estava cumprindo meu papel revolucionário! 
Chegado meu sétimo período, a formatura dos mesmos amigos se avizinhando enquanto a minha ainda estava muito longe, eu tive a oportunidade de me somar à pesquisa da professora Elina Pessanha, a quem sou muito grato, sobre relações de trabalho e Justiça do Trabalho. Hoje me vejo bem distante do tema, mas sem dúvida recuperou meu interesse pelo conhecimento.
A descoberta da Antropologia, disciplina por mim detestada desde o início do curso, me fez entrar de cabeça neste vício que é buscar olhar a sociedade por trás de seus véus. Hoje não tenho religião, mas também não posso me considerar ateu, pois a dúvida se tornou minha maior parceira, e também duvido do discurso do ateísmo, assim como da ciência.
Nestes 7 anos, muita coisa mudou. Minha relação com o humilde prédio sempre prestes a pegar fogo como todo o seu contorno alternou entre altos e baixos. Já tive momentos de desespero ao entrar lá, cruzar o pátio como velho hábito da militância e subir pelo elevador dos fundos. Mas também houve momentos de grandes descobertas e aprendizados.
Hoje saio do IFCS. Pareço sair no momento certo, onde a vida universitária soa mais pragmática e com menos misticismo, mas isso pode ser puro saudosismo. O fato é que já não me sinto mais pertencente. E, como qualquer um que sai de lá, não sei ao certo o que será do meu futuro. Mas independente disto, uma certeza fica : o IFCS não sai mais de mim.

domingo, 10 de março de 2013

Hugo Chávez e a Revolução Bolivariana

Por Lucas Machado dos Santos
Tive a oportunidade de conhecer o programa político do presidente Hugo Chávez Frias da Venezuela de forma mais aprofundada há alguns anos atrás pela primeira vez, através da leitura de uma longa entrevista por ele concedida à socióloga chilena Marta Harnecker. Nesta entrevista que deu origem a um livro, Hugo Chavez ressaltou a importância que teve a participação política ativa das classes populares para a elaboração de novos moldes institucionais e jurídicos para a República Bolivariana da Venezuela, por conta da aprovação da nova constituição em 1999. Explicitou a importância de se ter recuperado em prol das causas populares na Venezuela a figura do libertador, Simón Bolívar, "até um ponto em que os oligarcas, que antes se chamavam bolivarianos, agora não querem mais ser chamados assim". Declarou que a população venezuelana deveria conhecer profundamente sua constituição para deste modo, defender seus direitos: "é preciso lê-la, discutí-la, analisá-la, interpretá-la, amá-la". E que belo trabalho a revolução bolivariana tem feito neste sentido, desde então.
Uma homenagem a Hugo Chávez. A herança de seu trabalho na direção da educação política do povo venezuelano não será esquecida.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Por uma vida sem padrões

Para quem estava curioso para saber o que houve com John Silver após seu recente sumiço, aconselho: não perca seu tempo, assim é esse pirata, some e aparece quando deseja! Desta vez não demorou muito a ele me dar um retorno por e-mail.
Aproveito a deixa para dizer que essa história me lembra muito uma conversa que tive com MC Durango Kid, vulgo Marcelo Moraes. Durango, indignado com a minha crítica às vestimentas de um cidadão no Campus da Praia Vermelha, na UFRJ, enquanto passávamos nas salas para dar algum recado do movimento estudantil, certamente ofuscado pelo ensinamento do camarada, tendo em vista que nem me lembro o que era, disse-me:
"Que isso, cara! Quantas pessoas no mundo se vestem como você, de calça jeans e camisa pólo? Será que estão todas felizes?", disse ele. Estou seguro que não! A história de Long John desenvolve um pouco esse ponto de vista:

"Caro Marujo,

Quer dizer que agora você aceita que qualquer trapo falante escreva para o seu blog? Cão Preto é um sujeito sem alma! Não que a minha seja das mais puras! ho ho ho. Mas, em parte, o que ele diz está certo. Parti do Rio de Janeiro sem um troco sequer, e parei na casa de um velho pintor. Ele, que mora com a mulher na mesma grande casa há muitos anos, contou-me a história de sua vida.
A casa, com um quintal grande com muitas árvores é, sem dúvida, um bom lugar para se ter uma vida pacata. Não é o caso desse velho pirata que vos fala! Com certeza não! Mas aquele velho, nem sempre pacato, parece muito íntimo ao seu lar.
A mulher que sempre trabalhou. Ela é dessas que ensinam o que sabem aos pequenos. Ele se lamenta de ser acusado pela família de não fazer a mesma coisa. "Nunca trabalhou, pode isso?" teria dito um ainda mais velho! Mas não era verdade, ele já havia trabalhado. Mas não conseguiu, não era ele! "Se ele pintasse uns quadros que se pudesse botar na parede!", também se ouviu!. Estranhei, afinal eram pinturas de maravilhar até o Cão Preto, aquele verme! Mas o colorido de suas obras não combina com as cores duras do navio, ou de uma sala de estar! O velho nunca fez de sua arte um ofício. Aquele seu amigo barbudo diria que ele só vê valor-de-uso em suas obras, não valor-de-troca.
Seu conflito o levou a alguns erros. Sua condição, para muitos inviável, o levou a se perturbar. 
Mas o "Estraga", como ficou conhecido, meio que sem querer, também ensina muita coisa bonita aos pequenos. Talvez por ele ser um tanto pequenino também. Antes de ir embora ele me mostrou um de seus quadros. Um menino subia uma escada a fim de entregar a pipa ao homem sem rosto. A pipa lhe salvaria. Penso que nós piratas não temos esse problema, esse menino nos traz até pipas demais, meu caro! Mas é um grande ensinamento aos homens sem rosto. Parabéns ao Estraga!

Até logo, marujo!
John Silver"

sábado, 2 de fevereiro de 2013

As mil faces de Long John

Como havia sido relatado por John Silver, Cão Preto retornou com o navio de Recife. Tripulação com o espírito renovado, a viagem segue mais tranquila. Enviou-me este e-mail com as novidades.

"Caro Marujo,

Estou à procura de Long John. Esse velhaco navegante enviou-me um e-mail dizendo que estava por aí no Rio de Janeiro, e quando chego à Baía de Guanabara, descubro que ele já partiu. Parece que veio para cá com os bolsos furados e foi embora da mesma forma. Como pode? Parece que aqui aportou e com aquela lábia foi conseguindo um trocado aqui, acolá, resolveu suas tramas e conseguiu ir embora sem deixar rastro.
A população do cais, encantada, dizia que ele vivia rindo de alegria, gritava com emoção suas histórias de viagens. Eu que resignado vinha lhe devolver o comando do navio, tenho que lhe procurar um cadim.
Mas vou de navio, o preço da gasolina subiu assustadoramente esta semana. Esses ladrões canalhas de terra firme não facilitam em nada a vida da ralé. Sempre foi assim, malditos! Ao menos o ônibus não aumentou o preço. Já a van 284...
Enfim, a palavra não é meu forte e estou cansado de paz e amor. Faz tempo que não rasgo o buxo de um. Quem sabe desse escorregadio John Silver?

Até,
Cão Preto"

sábado, 26 de janeiro de 2013

Em defesa de Karl Marx

Estudar o velho Marx é sempre saudável e interessante quando se contrasta com o que os professores falam em sala de aula. 
No capítulo 2 do Capital, "O Processo de Troca", Marx fala que a sociedade capitalista é aquela na qual a troca se realiza como um processo social. Assim, os indivíduos passam a produzir para a troca e não mais para a subsistência. Só que para ele o que sustenta esse sistema de troca de mercadorias é a certeza de que a mercadoria que ele produz poderá ser trocada por outras que servirão ao seu consumo, à sua subsistência. Portanto, todos se convertem em possuidores de mercadoria, ainda que esta seja a sua própria força de trabalho, também utilizada para a troca.
Pergunto: O que isto tem de economicismo? Se a confiabilidade na troca é a razão de ser das relações sociais?

A frase " a infra-estrutura determina a superestrutura, em última instância" muitas vezes converte-se na prova cabal da afirmação de que a análise social de Marx é economicista, uma vez que a cultura e a política seriam subprodutos das relações sociais de produção. Isto mostra, no meu entendimento, uma crítica desleal ao pensamento de Marx, motivada por uma necessidade de demarcação de campo da Sociologia enquanto ciência. Fato este que eu vejo sem sentido nos debates atuais, se é que reduzir o debate intelectual é conveniente em algum momento.
Esta interpretação carrega dois erros. Um é o de jogar fora a expressão "em última instância", ou seja, ainda que em última instância haja uma determinação, o que prevalece em Marx é a visão de que todas as coisas assumem uma relação dialética, e assim cultura, política e economia estão sempre se transformando e influindo mutuamente todo o tempo. O outro é a dificuldade de entender isto como um modelo ilustrativo, uma vez que para Marx tudo que compõe um modo de produção, uma formação social é matéria. E mais uma vez entender matéria como sinônimo de economia é um equívoco. 
Evitando acusações rebaixadas, não quero dizer com isso que a teoria de Marx tudo revelou. Isto seria negar a própria dialética materialista. A realidade, ao se transformar exige que o conhecimento se renove. O que defendo é a honestidade intelectual, principalmente tratando-se de um pensador importante da história intelectual moderna, que até hoje é referência para milhões mundo afora e que tem contribuições inegáveis para o pensamento humano.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

HELOISA BUARQUE DE HOLLANDA CONVERSA COM GERALDO NUNES


Respeitáveis marujos,

Estou publicando essa entrevista a pedido do professor Helio Mattos, da UFRJ. Acredito que boa parte de vocês tenha acompanhado tudo que foi veiculado na mídia sobre suspeitas de atos ilícitos na UFRJ.
Passado algum tempo de toda essa explosão de informações, achei justo publicar um outro olhar sobre o fato. Muitas vezes não é noticiado como a comunidade universitária em grande parte steve do lado do reitor, e o próprio foi absolvido de qualquer acusação. Sendo assim, deixo-os com a entrevista, pois sabemos que na mídia não haverá espaço para explicações:


Caros colegas, desde aquele domingo em que fomos todos surpreendidos pela matéria do Fantástico com  denúncias  de desvios de dinheiro pela UFRJ, fiquei achando que devia fazer alguma coisa. Mas tudo foi meio contornado e semi resolvido a não ser pelo Professor Geraldo Nunes, que foi demitido. Conheço Geraldo há muitos anos, sei da competência dele, tive vários convênios internacionais articulados impecavelmente por ele, além de ser um parceiro antigo do Programa que coordeno, o PACC-UFRJ, no FCC.  Assim, fiquei particularmente tocada quando soube de sua demissão. E senti a necessidade de uma conversa para saber o que de fato tinha ocorrido e porque só ele havia sido penalizado de forma tão pesada e radical. Como sei que muitos de nós gostariam de entender melhor e ouvir sua versão dos fatos  em viva voz, senti a necessidade de compartilhar com todos minha conversa com Geraldo num café da zona sul da cidade. Segue a transcrição da conversa.
Heloisa Buarque de Hollanda
Professora Emérita da UFRJ

Heloisa:  Estes últimos dias têm sido de informações cruzadas, notícias sempre incompletas, encontros com advogados, abaixo assinados, mas nada que ponha os devidos pingos nos iis. Afinal o que foi que aconteceu?

GERALDO – O que aconteceu foi um processo contra a Reitoria e, no caso, também contra mim que é sobre o que você está perguntando no momento. Os fatos alegados no processo são relativos a serviços prestados  ao Gabinete do Reitor pela empresa da qual sou sócio. Na época precisava-se de uma série de suportes para o setor de convênio em Relações Internacionais que coordeno,  como serviços de informática para construção de um site, serviços e material de divulgação, etc. Como se tratava de uma situação de emergência, aquela coisa da  universidade que entrava burocraticamente no meio de urgências, me pediram uma nota da minha empresa Turbulência para cobrir estes gastos porque não havia outra alternativa naquele momento para pagamento desses serviços. Aí a  firma deu a nota.

H: Foi pedido exatamente o quê?

GERALDO – Foram pedidas duas notas para efetuar o pagamento desses serviços.

H: Que serviços?

GERALDO – Serviços de elaboração de site, manutenção de site, traduções, divulgação. Não me lembro de tudo detalhadamente porque isso foi do  início de outubro de 2007 até março de 2008.

H: Os serviços foram feitos por você ou por sua empresa?

GERALDO – Não, não. Eu não sei fazer esse  tipo de serviço... Os serviços foram realizados por prestadores de serviços.

H: Então esse dinheiro foi um dinheiro apenas  repassado pela Turbulência?

GERALDO – Claro, foi apenas um repasse. Foi uma solução emergencial para pagar todo mundo que tinha que ser pago. O dinheiro entrou na conta e saiu imediatamente.
Foi o que a gente chama, numa linguagem mais jurídica, uma operação pro bono. Não ficou um tostão na empresa. Naturalmente a empresa, como é uma empresa regular, legal, de domicílio fixo, CNPJ fixo, pagou os impostos, naturalmente. Mas deduzidos os impostos, a empresa não ficou com nada, é só olhar o saldo.

H: essa operação foi  aprovada formalmente?

GERALDO – Claro! Foi pedida pelo gabinete, com a anuência do Reitor e aprovada pelo ordenador de despesa, foi cumprido todo o processo de aprovação. Tanto é que se não fosse assim eu não podia ter feito, porque eu não sou ordenador de despesa...

H: Por que você não arranjou outra empresa para fazer esse repasse?

GERALDO – Porque não dava tempo. Não dava tempo, e mesmo que desse tempo, ia ser dez vezes mais caro. As empresas cobram alto pelo repasse.

H: E isso é comum na universidade?

GERALDO – Se isso é comum na universidade? É muito simples: se não houver isto dentro da universidade, a universidade não funciona.

H: O que  fazer para evitar esse tipo de procedimento que acaba queimando todo mundo?

GERALDO – Acho que, isso sinceramente, o que deveria ser feito seria profissionalizar a universidade, nós somos amadores em todos os níveis. Se nós fossemos profissionais, tínhamos um staff  profissional de técnicos , funcionários especializados e, quando necessário, formas mais racionais de terceirização. Basta ver a quantidade de obras na universidade que estão hoje paradas, por quê?

H: Esses entraves são da própria legislação?

GERALDO – São também.  No nosso caso, para agilizar esses procedimentos necessários criamos fundações de apoio. Mas essas fundações acabaram sendo engessadas também.  Nesse próprio episódio em questão foi isso. Os recursos do Banco do Brasil foram repassado para a FUJB. E uma das acusações que caem em cima do reitor, enfim dos responsáveis, dos ordenadores de despesa, é que a FUJB é uma instituição de direito privado. E que não poderia ter repassado esse dinheiro. Ora, a FUJB existe exatamente para isso.

H: Estou na UFRJ há mais de 50 anos e reconheço que é praticamente impossível trabalhar dentro das normas kafkinianas que são impostas. O que aconteceu com você, poderia ter acontecido literalmente com qualquer um de nós que desenvolvemos projeto dentro da Universidade.  Então sinto o seu caso como um caso exemplar para se repensar as normas administrativas a que somos sujeitos quando queremos trabalhar nem que seja minimamente...

GERALDO Sem dúvida. Profissionalizar esse processo de internacionalização na universidade foi um trabalho hercúleo. Criei o setor em 1994, na gestão do Paulo Gomes. Fiz todos os convênios e projetos de relações internacionais para a UFRJ sozinho com a ajuda de somente duas pessoas. E quando eu voltei em 2003, a convite do Aloisio, o setor tinha crescido de duas ... para três pessoas. Estamos em 2013 e ainda não consegui uma mesa para sentar, nem computador para trabalhar.

H: eu queria saber porque de todos os acusados você foi o único seriamente penalizado. Entre vinte e sete mil reais e cinquenta milhões....

GERALDO –O problema é que os cinquenta milhões não foram considerados como desvio do dinheiro público. A CGU viu, verificou e avaliou que o dinheiro foi efetivamente usado dentro da universidade, que os recursos foram aplicados para o bem da universidade,

H: Mas os seus vinte e sete mil reais também foram aplicados na universidade.

GERALDO – Os malditos R$ 27.100,00 fazem parte desses cinquenta milhões. Tanto é que tem um amigo que fez a conta, é 0,054% desse valor. O problema é que a acusação que recai sobre mim é que eles dizem que eu utilizei esse dinheiro para beneficio próprio porque sou sócio da empresa que deu a nota. Fui acusado de ser gerente que é quem, por lei, não poderia dar a nota, só que não sou gerente da Turbulência. Sou  sócio cotista, o que é estar dentro da lei, não tem problema nenhum. Mas eles me acusam de ter, primeiro, intermediado o serviço. Não fui eu que pedi para fazer isso. Foi pedido de dentro do gabinete e aprovado pelo ordenador porque na época justamente considerava-se que o dinheiro não era público, que não tinha que ser vinculado à conta única, poderia passar pela FUJB, e portanto teria uma maior flexibilidade de utilização. E isto foi a orientação que me foi dada. E eu aceitei.
Então... Aliás é o que diz também esse colega nosso “Pô o sujeito que quer roubar qualquer quantia, ele não vai dar o nome da empresa dele, o endereço da casa dele, aonde ele mora, com tudo legal, e para roubar R$ 27.100,00.” Só se ele for burro, só se ele for muito burro.  

H: Burro você  não deixou de ser dando essa nota ...

GERALDO – Aceitei a fazer essa intermediação por pressa. E por ingenuidade. E porque eu queria que o trabalho fosse feito e porque a gente precisava daquilo, estávamos num  momento no qual o setor de Relações Internacionais estava crescendo. E eu estava preparando o curso de capacitação para funcionário de Relações Internacionais em Brasília, montando todo um esquema para responder aos editais da CAPES e outros programas  com os quais a gente trabalha até hoje. Ganhamos oitenta e cinco bolsas benefiando funcionários e 2008 para cá. Pela primeira vez mandamos um técnico administrativo, para o exterior, para fazer dois meses de estágio na Universidade de Lisboa

H: E o que você acha de ser demitido por conta disso?

GERALDO – Bom, para mim a minha vida acaba. Me sinto no corredor da morte por enquanto, sem saber se eu vou para um lado ou se vou para o outro. É terrível você ficar sem chão, sem nada, porque eu perco o salário e  a aposentadoria. Eu não sou proprietário, eu pago aluguel. Se meu salário for cortado, eu tenho que ir para a rua ou ir fazer greve de fome na porta da Reitoria.

H: É meio kafkiano ser demitido assim...

GERALDO – É uma história kafkiana. Até agora não entendi. A única coisa que eu entendi é que a demissão é por conta do fato de que, no parecer da CGU, eu sou julgado como se eu fosse gerente da empresa, que eu não sou. Esse seria um fato que justificaria a demissão. Mas não sou gerente.  O outro é que o dinheiro foi para o meu uso próprio, que eu me beneficiei do cargo para uso próprio. O que também não foi.  E tem a terceira, que é uma acusação de improbidade administrativa porque, segundo o parecer, pelas minhas atribuições no cargo, eu deveria ter feito os trabalhos que estavam me pedindo. Estou então esclarecendo no recurso que nunca fui engenheiro de sistema, que eu não entendo nada de internet, que eu não entendo nada de divulgação institucional, e que mesmo que entendesse não daria tempo, porque ia ter que parar tudo, porque éramos só quatro dentro do setor.

H: Você já foi demitido?

GERALDO – Virtualmente sim, mas estou entrando com um recurso essa semana. É um recurso com efeito suspensivo. É encaminhado à CGU, se ela aceitar, tudo bem, eu volto para a folha e tal, vai ser revisto o processo e etc. Se não for aceito, eu saio da folha imediatamente, aí eu tenho que entrar com uma liminar na justiça. Para pedir a reintegração.

H:  o que você acha que a universidade pode fazer por você, agora, para ajudar?

GERALDO – O que está acontecendo comigo pode acontecer com qualquer um de nós, isso é importante lembrar. Para me ajudar acho que a universidade tem que primeiro, se organizar internamente para manifestar confiança na minha idoneidade e me apoiar contra as diversas instâncias que estão pedindo minha demissão. Os Conselhos de Centro, os decanos de centro, o CONSUNI e a Reitoria, sobretudo a Reitoria, precisam se manifestar nesse apoio.  Porque a verdade é que é a Reitoria que conhece o meu trabalho. Então a Reitoria, através do CONSUNI, através dos diversos órgãos colegiados, tem que mostrar que acompanhou todo esse processo. Seria importante que os órgãos representativos e a Reitoria se manifestassem atestando minha idoneidade. .

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Ano Novo! Vida Nova?

"Caro Allysson,

Você sabe muito bem que marujos como eu são chegados a superstições. Sereias, crackens, mortos-vivos, franceses amigáveis. Em tudo isso acreditamos. Mas Papai Noel, Coelho da Páscoa, julgamento justo para piratas, isto já não faz parte das nossas crenças. Ano novo também não, até agora. Mas você sabe que atualmente ando mais simpático a esses costumes da gente comum? Pois então, nesse início de 2013 decidi inovar e viajar por terra.
Deixei o comando do navio nas mãos de Cão Preto. Esta nunca é uma ideia prudente, mas ele tomado pelo mais nobre espírito holandês levou a tripulação para Recife, a fim de observar este tal CONEB da UNE e o Encontro de Grêmios da UBES. Ficou sabendo que estão querendo que o povo do cais também possa ser sabido, letrar-se, e então não pude contê-lo. Mas fique tranquilo, garanti que retirassem todo o rum do convés, e penso assim ter evitado que algumas mortes ocorram pelas mãos trêmulas e nervosas deste cachorro navegante!
Mas eu resolvi ficar e ir por terra firme. A imagem de um homem morto, com moedas de sangue boiando na poça de sangue que saía de sua cabeça me fez repensar o sentido dessas tantas viagens. Já Cão Preto aproveitou o ouro e levou consigo, é claro. Sem sequer deixar algo para a boa passagem do homem. Mas o fato é que este início de ano tem me deixado mais mole para essas crueldades da vida.
E por sinal, o lugarejo onde estive anda cheio de notícias de mortes e crueldades que correm as redondezas. No entanto, eu não passei por nenhuma tempestade, por onde andei esteve sempre um clima ameno e o povo amistoso.
Eu tão acostumado a ouvir a palavra liberdade da boca dos franceses, e até dos americanos (onde estive preso, por ironia), dessa vez ouvi dos japoneses. O rum não era caro, ao contrário do que se podia esperar, e os sotaques os mais diversos. Hábitos dos mais diversos e apesar da vida dura os sorrisos não se negam. Ah, existe amor por lá, sim, meu caro! Existe!
Despedidas sentidas, olhos marejados, ainda fiz amizade com um garotinho que pegava o trem comigo. Curioso com a minha aparência de homem do mar, ele me contava como gosta de futebol, mas não torcia pelo time da cidade. Parece realmente que há um lugar para todos lá, ainda que seja no coração anfitrião do povo do local.
Mas logo estarei de volta ao mar. Sigo para o litoral e esperarei a volta de Cão Preto. Que novidades ele terá para contar? Esse ano será mais de grandes missões que de aventuras. Mas sempre há tempo para uma caça ao tesouro, não é verdade, marujo? ho ho ho

John Silver"