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sábado, 16 de novembro de 2013

Reflexões sobre o "Mensalão"

Não estou entre aqueles que estão arrancando os cabelos, ansioso, com as eleições de 2014. Não tenho medo de Aécio Neves, Marina da Silva nem de nenhum outro fantoche que as elites brasileiras pretendam forjar daqui até lá, pois confio que os partidos de esquerda de fato ganharam prestígio frente ao povo, que viu sua vida melhorar. O que me preocupa, para ser sincero, é a fetichização da política que a grande mídia vem construindo há algum tempo.
Digo isto porque, na minha humilde opinião, a discussão que se promove em torno de José Dirceu, Genoíno, os réus do "mensalão" e o PT se justifica exclusivamente por isso. Eu não acredito nos valores liberais de neutralidade, seja da imprensa, da Justiça, de quem for. Parece-me, ao contrário, que há só interesse neste caso. Não fosse assim já teríamos visto o ex-governador de SP, José Serra, sentado no banco dos réus a responder pelo escândalo do metrô, viríamos o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso respondendo pelos absurdos cometidos nas privatizações das estatais que aconteceram em seu governo. E veríamos tudo isto noticiado no Jornal Nacional, diariamente e com ênfase no papel repugnante que o PSDB, maior partido da direita no Brasil, tem nisso tudo.
Penso que tudo isto serve não ao olhar pragmático das eleições de 2014, pois como tática eleitoral já falhou várias vezes. O que há, na verdade, é uma construção subjetiva de que a política é para os safados. Assim, você cidadão de bem, trabalhador honesto, jovem com futuro, não deve se meter nesses assuntos, não deve se "sujar". Assim será retratada a estadia do PT na presidência da República nos livros de História. E assim farão com que os jovens acreditem que políticos são todos iguais, que não existe esquerda e direita.
Mas os políticos não são todos iguais, quanto a isso não há dúvidas. José Dirceu não é sequer semelhante a José Serra, ou a Paulo Maluf, ou a tantos outros. Ainda que seja condenado, não será igual a eles. Inclusive porque, reafirmo, o que está em jogo não é a condenação dele, pois a isso ele dá grandes demonstrações de não temer, já enfrentou prisão bem pior que essa. O que está em jogo é queimar uma História de lutas da esquerda. Esquerda essa que enfrentou a Ditadura Militar, que resistiu ao Neoliberalismo, sempre marchando ao lado do povo, e que chegando ao poder, fez mudar sua vida.
O PT não resolveu e nem resolverá, penso, todos os problemas do Brasil. Acho até que não se propõe a isso, uma vez que a conciliação de interesses norteia suas ações. Mas todas as conquistas até aqui devem ser louvadas, que sem a participação popular não seriam alcançadas. Parabéns ao Genoíno, Lula, Dilma! Parabéns Brizola, Miguel Arraes, Luís Carlos Prestes, Carlos Marighella, Jango, João Amazonas! Parabéns Zé Dirceu, parabéns PT! Seguimos em frente!

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

As manifestações, o Estado e os debates acerca da violência: uma contribuição singela

Creio haver um certo fetiche da violência nos debates que cercam as manifestações. Nada mais natural. Toda discussão moderna sobre o que é o "Homem", e aquilo que o diferencia dos outros animais se encerra no entendimento de que o homem produz cultura, se afastando do "estado de natureza" como diria Hobbes, e assim, ao se organizar em sociedade estaria buscando harmonia, se afastando do "estado de guerra", como quer Durkheim. Portanto, homens não deveriam ir "às vias de fato" em nome de seus interesses particulares, mas submetê-los à moral, aos valores que regem a sociedade.
Tudo isto leva a uma negação da força física como instrumento humano, apesar dela sempre ter sido um instrumento humano. Deverá então o Estado ter o monopólio da violência, afim de garantir a manutenção das leis, para que não se rompa os elos sociais. E o Estado é de fato violento, está em sua essência e não é nenhuma novidade. Felizmente, há também no pensamento humano os teóricos que enxergam os conflitos que movem a sociedade, recusando a perspectiva da harmonia. Assim, para Marx, o Estado não é este ente moral e neutro que garante a harmonia, pois a sociedade moderna, e algumas outras, se organizam em classes sociais. Há aqueles que são donos dos meios de produção, e há outros que só possuem sua força de trabalho. Neste conflito, não há como o Estado ser neutro, e para garantir a ordem muitas vezes é preciso que funcione como braço armado dos interesses dominantes. Neste caso, a luta dos dominados precisa se valer da violência enquanto instrumento de luta, mesmo que essa violência não seja legítima aos olhos da sociedade, já que só o Estado pode exercê-la. Porém, é importante destacar que a violência jamais pode escapar deste caráter de instrumento, e não se tornar o fim da luta, ao passo que é preciso que se atribua um fim à luta.
Quando debatemos a situação das Manifestações de Junho, que no Rio de Janeiro não pararam em junho, é preciso olhar à luz da história esse debate. Tampouco não é novidade que no Brasil o Estado é violento, mas é preciso entender que passos foram dados na luta do povo. Durante muito tempo se lutou, de forma violenta inclusive, para que se tivesse direito à fala nesse país e em toda a América Latina. A superação das ditaduras militares e a paulatina superação do neoliberalismo põe a luta do povo em outro patamar, sendo possível ir às ruas e expressar o que se deseja. É verdade que a implementação do programa liberal também ressignifica este ato de se expressar, uma vez que se esvaziaram os movimentos e partidos políticos e se coloca em xeque a possibilidade de representação, indo cada um às ruas com seus cartazes.
Não tenho qualquer problema com o novo. Ao contrário, sou entusiasta dele. No entanto, a inversão deste fetiche da violência, significa fetichizá-la, também. A negação do processo histórico, interpretações nas quais "ainda vivemos uma ditadura" e a separação entre pelegos e revolucionários que toma como medida o uso de escudos e paus ou não pode significar o esvaziamento da pauta política.
Não serei eu que condenarei o uso da violência, mas peço a mesma tolerância aos que enxergam a necessidade de outras formas de luta, que a conjuntura atual permite, devido a luta de outros que nos antecederam. A violência é física, mas também é simbólica e se expressa nas diversas formas de relação da vida social. Nas relações de trabalho, na construção do conhecimento, na padronização cultural, nas relações conjugais e familiares, etc. A cada uma dessas formas é preciso reagir, e estou convicto que com apenas paus e pedras não resolveremos essas contradições, mas sim com consciência coletiva e com a perspectiva de construção de uma nova sociedade, não apenas a velha remendada.

domingo, 18 de agosto de 2013

Um Olhar para o Estado Nacional



Texto escrito para a Tribuna de Debates do congresso do PCdoB

Para fazermos um debate acerca da disputa pelo poder e conjecturar sobre o Estado brasileiro, é preciso antes detectar como se entende o Estado Nacional moderno e o discurso liberal que se faz através dele e de seus aparelhos ideológicos, para então propormos uma visão de classe sobre o tema.
A ideia de uma nação em escalada linear rumo ao progresso, em benefício de todos os seus compatriotas, iguais entre si, ganharia a forma do Estado Nacional moderno, na visão do historiador Benedict Anderson, no século XIX. A nação, atemporal, é marcada por grandes acontecimentos e grandes heróis que tem sua importância para a consolidação de seu Estado Nacional, esse sim finito, datado.
É o marxismo que aponta a contradição deste discurso, apontando que é a luta entre classes antagônicas que move a História, e não uma parceria coletiva pelo desenvolvimento duma comunidade de iguais. Assim, o tão proclamado e defendido Estado uno brasileiro não pode ser entendido como se a qualidade de unidade fosse oriunda de sua essência, mas sim possui condicionantes históricos como o genocídio de indígenas, a repressão à cultura afro-brasileira. Assim planejou-se um Estado que mantivesse uma unidade inspirada em tradições européias, ainda que aspectos indígenas e africanos sobrevivam em nossa cultura dada a luta de resistência.     
Demarcada esta perspectiva de classe, podemos compreender que papel tem o PT neste processo de afirmação de um Estado Nacional brasileiro.
É notório que os governos petistas têm um caráter popular e que têm a marca do combate às desigualdades sociais através das políticas de elevação de renda e do investimento em programas sociais, (ainda que a estes deva ser feita à crítica dos malefícios da terceirização de seus serviços). É espantoso que milhares de famílias não tivessem acesso à energia elétrica em pleno século XXI, por exemplo, e o PT tem cumprido o papel de garantir o acesso às necessidades básicas de nosso povo, ainda que com debilidades nas áreas da saúde e da educação.
Por outro lado, a visão de inserção cidadã do governo ainda se limita à aquisição de padrão de consumo. O governo petista não cumpre o papel de subverter a visão de que o acesso à felicidade se dá pelo consumo pleno. Em última instância, o que está colocado é o que Marx descreve como a lei geral da acumulação capitalista, que é garantida pela extração cada vez maior do valor excedente do trabalho e o incentivo cada vez maior ao consumo da classe trabalhadora. O fim é o seu endividamento e a crise do sistema capitalista.
A ideologia do consumo, portanto, não é posta em xeque. É papel nosso questioná-la. No lugar do cidadão-consumidor, que com poder de compra vê-se como auto-suficiente, independente do outro, quase um Robinson Crusoé do mundo contemporâneo, precisamos reforçar a consciência coletiva, a necessidade de participação política, a identidade de classe trabalhadora. Quando fazemos o bom exercício de buscar entender a realidade brasileira, precisamos também colocar na balança os elementos de nossa cultura que apontam para uma consciência revolucionária. As recentes manifestações populares mostram a urgência da necessidade de organizar o povo, de construir pautas avançadas junto aos movimentos sociais. Avancemos em termos de democracia, para além do que rege a democracia liberal!
Deve estar ainda em nosso horizonte produzir conhecimento e memória autônomos. A mídia vem construindo uma memória do momento histórico brasileiro (e futuramente as instituições educacionais reproduzirão este discurso) que é antagônico à luta do povo e suas expectativas, já que nos vemos dando passos em termos de soberania. É preciso desenvolver estratégias eficazes na disputa dessa hegemonia, e é preciso que isto esteja no centro de nosso debate partidário!
Entendo o movimento que faz o Partido ao buscar ampliar seu espaço no parlamento, no poder político, no entanto, isto não pode significar o rebaixamento de nossa pauta política. É preciso pensar o partido de forma global, para a disputa do Estado, mas também dos movimentos, e, nesse sentido, precisamos dar passos largos ainda em termos de alcançar uma unidade política partidária.

ANDERSON, Benedict.  “Comunidades Imaginadas”. Companhia das Letras, 2008.
MARX, Karl. “A Lei Geral da Acumulação Capitalista” In: “O Capital”. Civilização Brasileira,
RIBEIRO, Darcy. “O Povo Brasileiro”. Companhia das Letras, 1995.

domingo, 16 de junho de 2013

A Casa dos Homens de Vida Vazia

"Hoje não é o dia do meu pai", diz o filho. "Eu mereço mais que isso", diz a esposa. "Ela só quer trabalhar, não faz nada em casa", diz o marido. "Ela me segura com as crianças", um outro marido, talvez. E talvez não segure por muito tempo, a depender da habilidade. "Quem mandou querer ser o provedor...", comenta o não-compreendido.
As velhas formas vão sendo abaladas à medida que o que eles chamam de "novas oportunidades" vão surgindo. Eu digo velhas no melhor sentido da palavra, das grandes tradições culturais. Mas me parece que, conforme novas ideias vão ganhando repercussão, o velho só pode se reproduzir como cópia, como um modelo a ser seguido, esvaziado em seu conteúdo. A essa compreensão devemos agradecer ao americano Marshall Sahlins, que nos desperta para a constatação de que uma tradição tem sua história, e ela tende a mudar.
É verdade que essas mudanças nem sempre serão admiráveis. Mas o fato é que a galera anda questionando sua forma de viver. A ideia de que o ser humano nasce, cresce, trabalha, casa, se reproduz, continua trabalhando e morre tem inspirado insatisfações de tipos diferentes.
Alguns falarão do capitalismo e suas contradições inerentes, que faz desse modelo um discurso, mas faz de tudo pra essa galera não conseguir atingi-lo. Um argumento que é muito simpático a mim, sem dúvida. Eu ponderaria ainda que cada vez mais a crítica derrota o dogmatismo, nesta batalha que vem rolando desde o século XIX. E eu não excluiria o discurso religioso disso.
Temos visto os bilontras do século XXI agora comandando atos políticos, no melhor estilo ocidental. Lutando contra "eles" (os políticos), se somam aos supostos bestializados e reivindicam "seus direitos". E há ainda aqueles supostos bestializados que se fazem de bilontras.
Os homens de vida vazia convidam a esperança a sentar à mesa. E a luz que tanto querem, se revelará atrás de infinitas cortinas de palcos azuis? Ponderarei, como é o meu papel, que é preciso saber antes de que cor é essa luz. Talvez seja o meu erro gostar mais do Brasil que da Turquia. Mas continuo o preferindo!

 

quarta-feira, 3 de abril de 2013

IFCS

14 de fevereiro de 2006. Não me lembro ao certo se essa foi a data da minha matrícula na UFRJ ou a minha filiação à União da Juventude Socialista. Em todo caso, os dois eventos aconteceram bem próximos, e, não à toa, se confundem em termos de importância na minha vida.
Conheci a UJS quando estava no terceiro ano do Ensino Médio num grande ato de coragem de camaradas que fizeram uma fala no pátio do Colégio Bahiense, um colégio privado que nunca esteve aberto à organização do Movimento Estudantil. Fui convidado a uma plenária que se deu na mesma tarde do extinto (ainda bem!) vestibular da UFRJ. Não me filiei naquele momento, mas pela primeira vez senti que meus interesses menos individuais sobre a política, o mundo não faziam de mim um alienígena como eu me sentia perante os meus colegas de turma, ao conversar com Sergio Duarte, vulgo Serginho, que mais à frente seria um camarada de militância.
Bom, voltando à vaca fria, eu conheci o grande universo que é o IFCS, vulgo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, através do mundo da política. Diogo, o grande camarada grande, dizia que o IFCS continha 17 correntes políticas e meia, uma vez que os nazistas que pichavam as paredes permaneciam na clandestinidade. E eu, calouro-militante da tão odiada e almejada UJS, comecei a conhecer e me relacionar com as figuras destas 17 correntes através da política, e, da mesma forma, com os amigos da minha turma.
A condição de calouro também foi descobridora. Há um certo desprendimento forçado nos rituais de passagem que foram o trote e o Churracs. O juramento do calouro, tão cuidadosamente elaborado por Daniel Iliescu, teve de ser quebrado.
Lembro-me bem também dos muitos meses que passei nas tardes no pátio do IFCS lendo A Ideologia Alemã, de Karl Marx,  sempre à espera de Flavinha e Gusta para algumas explicações. O envolvimento com a política e a teoria marxista me transformaram de um admirador da esquerda e simpatizante do socialismo em um militante com uma visão de mundo distinta.
Tudo isto me leva a crer que essa fase me levou a transformar curiosidades em convicções, e me levar a me posicionar diante do mundo. O moleque tímido de Jacarepaguá passava a entrar em contato com o universalismo e o cosmopolitismo tanto da academia quanto da política.
Entrei em contato também com a intolerância e a tolerância. O movimento estudantil e as aulas eram grandes demonstrações de intolerância, no que diz respeito à divergência de ideias. No entanto era grande a tolerância com as potencialidades humanas, ou ao menos era um exercício.
Porém o fascínio com a política era inversamente proporcional ao interesse pelo curso. Natural. Estranho seria se uma carreira tão marcada pelo exercício da crítica não permitisse aos estudantes criticar ela própria. Nisto meu curso foi se atrasando, ao passo que isso me fazia de chacota frente aos amigos. Por que me importar? Estava cumprindo meu papel revolucionário! 
Chegado meu sétimo período, a formatura dos mesmos amigos se avizinhando enquanto a minha ainda estava muito longe, eu tive a oportunidade de me somar à pesquisa da professora Elina Pessanha, a quem sou muito grato, sobre relações de trabalho e Justiça do Trabalho. Hoje me vejo bem distante do tema, mas sem dúvida recuperou meu interesse pelo conhecimento.
A descoberta da Antropologia, disciplina por mim detestada desde o início do curso, me fez entrar de cabeça neste vício que é buscar olhar a sociedade por trás de seus véus. Hoje não tenho religião, mas também não posso me considerar ateu, pois a dúvida se tornou minha maior parceira, e também duvido do discurso do ateísmo, assim como da ciência.
Nestes 7 anos, muita coisa mudou. Minha relação com o humilde prédio sempre prestes a pegar fogo como todo o seu contorno alternou entre altos e baixos. Já tive momentos de desespero ao entrar lá, cruzar o pátio como velho hábito da militância e subir pelo elevador dos fundos. Mas também houve momentos de grandes descobertas e aprendizados.
Hoje saio do IFCS. Pareço sair no momento certo, onde a vida universitária soa mais pragmática e com menos misticismo, mas isso pode ser puro saudosismo. O fato é que já não me sinto mais pertencente. E, como qualquer um que sai de lá, não sei ao certo o que será do meu futuro. Mas independente disto, uma certeza fica : o IFCS não sai mais de mim.

domingo, 10 de março de 2013

Hugo Chávez e a Revolução Bolivariana

Por Lucas Machado dos Santos
Tive a oportunidade de conhecer o programa político do presidente Hugo Chávez Frias da Venezuela de forma mais aprofundada há alguns anos atrás pela primeira vez, através da leitura de uma longa entrevista por ele concedida à socióloga chilena Marta Harnecker. Nesta entrevista que deu origem a um livro, Hugo Chavez ressaltou a importância que teve a participação política ativa das classes populares para a elaboração de novos moldes institucionais e jurídicos para a República Bolivariana da Venezuela, por conta da aprovação da nova constituição em 1999. Explicitou a importância de se ter recuperado em prol das causas populares na Venezuela a figura do libertador, Simón Bolívar, "até um ponto em que os oligarcas, que antes se chamavam bolivarianos, agora não querem mais ser chamados assim". Declarou que a população venezuelana deveria conhecer profundamente sua constituição para deste modo, defender seus direitos: "é preciso lê-la, discutí-la, analisá-la, interpretá-la, amá-la". E que belo trabalho a revolução bolivariana tem feito neste sentido, desde então.
Uma homenagem a Hugo Chávez. A herança de seu trabalho na direção da educação política do povo venezuelano não será esquecida.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Por uma vida sem padrões

Para quem estava curioso para saber o que houve com John Silver após seu recente sumiço, aconselho: não perca seu tempo, assim é esse pirata, some e aparece quando deseja! Desta vez não demorou muito a ele me dar um retorno por e-mail.
Aproveito a deixa para dizer que essa história me lembra muito uma conversa que tive com MC Durango Kid, vulgo Marcelo Moraes. Durango, indignado com a minha crítica às vestimentas de um cidadão no Campus da Praia Vermelha, na UFRJ, enquanto passávamos nas salas para dar algum recado do movimento estudantil, certamente ofuscado pelo ensinamento do camarada, tendo em vista que nem me lembro o que era, disse-me:
"Que isso, cara! Quantas pessoas no mundo se vestem como você, de calça jeans e camisa pólo? Será que estão todas felizes?", disse ele. Estou seguro que não! A história de Long John desenvolve um pouco esse ponto de vista:

"Caro Marujo,

Quer dizer que agora você aceita que qualquer trapo falante escreva para o seu blog? Cão Preto é um sujeito sem alma! Não que a minha seja das mais puras! ho ho ho. Mas, em parte, o que ele diz está certo. Parti do Rio de Janeiro sem um troco sequer, e parei na casa de um velho pintor. Ele, que mora com a mulher na mesma grande casa há muitos anos, contou-me a história de sua vida.
A casa, com um quintal grande com muitas árvores é, sem dúvida, um bom lugar para se ter uma vida pacata. Não é o caso desse velho pirata que vos fala! Com certeza não! Mas aquele velho, nem sempre pacato, parece muito íntimo ao seu lar.
A mulher que sempre trabalhou. Ela é dessas que ensinam o que sabem aos pequenos. Ele se lamenta de ser acusado pela família de não fazer a mesma coisa. "Nunca trabalhou, pode isso?" teria dito um ainda mais velho! Mas não era verdade, ele já havia trabalhado. Mas não conseguiu, não era ele! "Se ele pintasse uns quadros que se pudesse botar na parede!", também se ouviu!. Estranhei, afinal eram pinturas de maravilhar até o Cão Preto, aquele verme! Mas o colorido de suas obras não combina com as cores duras do navio, ou de uma sala de estar! O velho nunca fez de sua arte um ofício. Aquele seu amigo barbudo diria que ele só vê valor-de-uso em suas obras, não valor-de-troca.
Seu conflito o levou a alguns erros. Sua condição, para muitos inviável, o levou a se perturbar. 
Mas o "Estraga", como ficou conhecido, meio que sem querer, também ensina muita coisa bonita aos pequenos. Talvez por ele ser um tanto pequenino também. Antes de ir embora ele me mostrou um de seus quadros. Um menino subia uma escada a fim de entregar a pipa ao homem sem rosto. A pipa lhe salvaria. Penso que nós piratas não temos esse problema, esse menino nos traz até pipas demais, meu caro! Mas é um grande ensinamento aos homens sem rosto. Parabéns ao Estraga!

Até logo, marujo!
John Silver"