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quinta-feira, 2 de abril de 2015

Uma análise materialista de "As Crônicas de Gelo e Fogo"

Para construir minha análise sobre a história de George R.R. Martin, As Crônicas de Gelo e Fogo, passarei por alguns acontecimentos que julgo fundamentais para então passar aos argumentos.


Acontecimentos que constroem a perspectiva geopolítica da história:

- A rebelião de Robert Baratheon

  Robert Baratheon e Ned Stark lideraram uma rebelião contra o rei louco Aerys Targaryen. Além de diversos assassinatos de nobres, o filho de Aerys, príncipe Raehar Targaryen, sequestrou a irmã de Ned Stark, prometida em casamento a Robert. Há controvérsias se foi um sequestro ou uma fuga consentida, um ato passional.

  Além das famílias Baratheon e Stark, também se uniram à causa a família Tuly, Arryn, seus demais vassalos e, por último, a família Lannister.

  Tywin Lannister, então Mão do Rei Aerys, virou-se contra o monarca quando a causa estava perdida. Seu vassalo, Gregor Clegane, o Montanha, estuprou e matou a mulher dornesa do Príncipe Rhaegar e também seus filhos. O filho de Tywin, Jaime Lannister, então guarda real, matou o rei louco, ficando conhecido como Regicida. A filha de Tywin, Cersei Lannister, foi casada com Robert Baratheon, se tornando rainha e rei, e, dando fim à qualquer possível inimizade entre as famílias.

  Ned Stark era casado com Catelyn Tully e John Arryn com Lisa Tully. A união entre essas três famílias garantiu a unidade política no Norte. O novo rei, Robert Baratheon, nomeou Ned Stark Protetor do Norte, e fez de John Arryn a Mão do Rei. O casamento com Cersei Lannister garantiu a unidade do reino.

  A família Targaryen, de tradição que remonta aos tempos da Valíria, foi eliminada. Conseguiram escapar dois filhos do rei louco: Viserys e Daeneris.

- O transcorrer da história

  John Arryn, Mão do Rei, já tinha mais de 80 anos quando morreu. No entanto, Catelyn Stark recebeu uma carta com uma denúncia de envenenamento de sua irmã e viúva, Lisa Arryn. Ned Stark, agora empossado como Mão do Rei, se dedicou a descobrir os responsáveis pela morte do cunhado.

  Seguindo as pistas do mesmo, Ned descobre que John Arryn foi envenenado pelos Lannisters por haver descoberto que os filhos da rainha Cersei eram do próprio irmão, o Regicida, e não do rei. Este episódio coincide com a morte do rei Robert e a nomeação do filho bastardo Joffrey. Ned Stark foi morto a mando de Joffrey por levar a cabo suas denúncias, mas antes enviou uma carta a Stannis Baratheon, irmão de Robert, dizendo que este era o legítimo herdeiro do trono.

  A poderosa unidade do reino estava desfeita. Stannis se pôs em guerra contra os Lannisters, Robb Stark, filho de Ned, se declarou Rei no Norte e também se levantou contra a capital, Porto Real, a fim, além de outras coisas, resgatar suas irmãs Arya (desaparecida) e Sansa, feita prisioneira.

  Robb e Catelyn, além de vários senhores do Norte, são mortos numa armadilha criada por Walder Frey, em acordo com Tywin Lannister. Participou da trama também Roose Bolton, que foi nomeado Protetor do Norte por Tywin Lannister, que praticamente toma as decisões pelo neto.

  Dessa maneira a situação política parece resolvida para os Lannisters. A família Stark foi estraçalhada, tomaram o poder no Norte através de Roose Bolton, o futuro casamento de Joffrey com Margaery Tyrrel também parece assegurar paz no sul. Stannis ainda reúne forças após fracasso no ataque à capital.

  Joffrey é envenenado em seu casamento. Seu tio anão, Tyrion Lannister, e sua agora esposa, Sansa Stark, são responsabilizados. Ela consegue fugir numa trama armada por Mindinho, homem das moedas do reino e dono dos prostíbulos de Porto Real.

  A história revela que Mindinho e Olena Tyrrel, mãe de Margaery Tyrrel, tramaram a morte de Joffrey. Mindinho se casa com Lisa Arryn e em seguida a mata, tomando posse de seu castelo. Durante a briga é revelado que os dois, juntos com os Lannisters, tramaram a morte de John Arryn e provocaram a guerra.

  Tyrion foge e mata seu pai, Tywin. Cersei e o Regicida são os Lannisters que restaram e não estão se dando muito bem. Mais à frente, em sua disputa pessoal com a noiva do filho e com a família Tyrrel, Cersei concede aos fiéis da crença dos sete o direito de se armar, acreditando estar assim reunindo aliados.

  O fundamentalismo da Igreja e seu crescente poder a levam a prender a rainha Cersei por crimes de luxúria. Ela é destituída dos poderes e exposta à punição pública, dando espaço ao crescimento da influência dos Tyrrel sobre o reino.

A Magia:

  A história começa com dois homens fugindo de criaturas sobrenaturais: os Outros, ou Caminhantes Brancos. São seres dos quais não se sabe bem a origem, mas vem das regiões mais frias do continente, no extremo Norte. Tem a pele branca, olhos azuis e parecem matar seres humanos indiscriminadamente. Só podem ser motos pelo fogo ou por ataque com aço valiriano.

  Uma grande muralha de gelo separa os "Sete Reinos" dessas regiões. Ela teria sido construída 8 mil anos antes dos acontecimentos atuais e foi feita para proteger os homens desses seres, e, portanto, em sua construção foi usada magia também. A muralha é defendida pela Guarda da Noite, uma irmandade que se propõe a defender os homens desses seres malignos. "Vestindo o preto" não se pode mais casar, ter filhos ou mesmo se envolver em disputas políticas do reino. Além dos Caminhantes Brancos, fala-se em gigantes, duendes, wargs e filhos da floresta.

  O lobo de Sansa é sacrificado logo no início, e a loba de Arya foge. Mais tarde fala-se em uma matilha de lobos que estaria atacando as redondezas de Porto Real, liderada por uma loba-gigante, que tudo indica ser Nymeria, loba de Arya.

  Sugere-se que John Snow, assim como seu irmão, pode entrar na mente de seu lobo-gigante, ou seja, é um warg, o que levanta especulações sobre a relação mágica dos Starks com seus lobos. Uma das famas que Robb adquiriu durante a guerra é de que se transformava em lobo antes das batalhas.

  Daeneris Targaryen também conseguiu chocar três ovos de dragão. Os dragões não eram vistos desde os tempos da conquista de Aegon Targaryen, quando morreram em uma guerra civil entre Targaryens. Dragões são entendidos como criaturas mágicas, oriundas da antiga Valíria. Segundo algumas profecias, o cometa vermelho que apareceu no céu corresponde ao nascimento dos dragões de Dany.

  Ao Norte da Muralha existia um homem chamado Craster que tinha uma espécie de pacto com os Caminhantes Brancos, oferecendo seus filhos recém-nascidos em sacrifício para manter seu acampamento intacto. Na série de TV, há um ritual de transformação do bebê em caminhante branco, o que sugere que exista uma inteligência nessas ações.

  Uma das religiões que é importante destacar é a crença em R'hollor, o Senhor da luz. Trata-se de um credo extremamente maniqueísta, que opõe o Senhor da Luz àquele "que não se deve dizer o nome". A sacerdotisa Melisandre conduz o pretenso rei Stannis à muralha para combater o mal, acreditando ser ele o herói Azor Ahai renascido. Neste momento fica claro que o mal está significado na existência dos caminhantes brancos.

Análise e especulações

  A história relatada em "As Crônicas de Gelo e Fogo" tem, na minha opinião, um debate central: a teia de relações que constituem a política e a cultura. Podemos ver nela conjecturas filosóficas sobre o poder nas conversas entre Varys e Tyrion Lannister, ou no curto embate entre Cersei e Mindinho, ou até mesmo nas explicações do avô Tywin Lannister sobre como um rei deve agir. Podemos ver também o conflito entre as verdades dos povos: o que para os westerosi é a vida civilizada, para os dothraki é covardia, "esconderijos de pedra"; já para o "povo livre", os westerosi são "ajoelhadores", estranhando suas hierarquias.
  Portanto, àqueles que iniciam a crítica pela estética, devo dizer que não captaram a mensagem. Dragões, zumbis e magia ajudam a constituir um universo, que, na verdade, é uma paródia do nosso. Diversas referências à história contada da humanidade estão ali: os povos saqueadores do norte da Europa estão representados nos homens de ferro, a Muralha de Adriano como o limite do Império Romano e todos os diversos choques entre culturas, mitos e produção de crenças.
  Com isso, as especulações que aqui desenvolvo não dizem respeito a uma luta do bem contra o mal, à união de personagens que admiramos, até porque a morte de Ned e Robb Stark já foram provas suficientes de que o maniqueísmo, enquanto lógica de visão de mundo, é combatido nessa história. Dizem respeito ao realismo defendido por George R. R. Martin, tomando como centro a política e a vida social.
  Em suas representações da história da Europa, Martin joga com acontecimentos históricos distintos. A guerra de Robb Stark contra os Lannisters puseram o reino numa grave situação de fome e miséria, causando inclusive revoltas camponesas, como sugere a cena do ataque ao rei Joffrey e o discurso em praça pública de um súdito não identificado. Também o episódio do corte da mão de Jaime Lannister é marcado por um sentimento de ódio à nobreza.
  O reino de Westeros está endividado, assim como o outro candidato ao trono, Stannis Baratheon, também pediu ajuda ao Banco de Bravos. Tudo isto sugere uma comparação com o surgimento da burguesia na Europa, onde o desenvolvimento das trocas comerciais foi acompanhado da centralização econômica e política dos Estados Nacionais. Para que se fechasse a equação, era necessário apenas o empreendimento das Grandes Navegações, que talvez fuja à dinâmica da narrativa, mas devemos lembrar que "Euron Olho-de-Corvo" navegou por "águas nunca navegadas", e que os homens de ferro acreditam que um povo vindo do Oeste habitou as ilhas antes deles.
  Outro aspecto histórico retratado é o fortalecimento da Igreja Católica.  A "crença nos ete", que são apenas um, é uma adaptação da "Santíssima Trindade". Quando a rainha Cersei concede ao Alto Septão o direito que a seita possa se armar, cavaleiros de todo o reino se juntam a ela. Em seguida a própria rainha é submetida a julgamento. Este é mais um aspecto da crise da ordem política instaurada em Westeros; a religião almeja o poder, ao passo que a aliança Lannister-Tyrrel está abalada.
  Sem poder prever o final, creio que este deva ter a ver com o declínio do poder do Trono de Ferro. Seria coerente com o processo que está se desenhando. No entanto, entrarei no debate sobre os personagens, a partir das informações que temos até agora.
  John Snow adquire um papel improvável se vemos sua trajetória, que é o de unificar, por meio da autoridade, Guarda da Noite e selvagens, identificando que os inimigos são os Caminhantes Brancos. Dessa maneira, fica mais próximo aos interesses de Melisandre que Stannis, que marcha para o sul. Isto alimenta as teorias de que John na verdade seria filho de Lyanna Stark com o príncipe Rhaegar, e que aos olhos de Melisandre seria o verdadeiro Azor Ahai.
  Outra incógnita é a personagem Daeneris Targaryen. Até então não se colocou em conflito sua condição de nobreza com os seus ideais abolicionistas. Conquistadora, começa a perceber que a supressão da escravidão pela força não pôde dar lugar a uma outra ordem social, já que não houve a constituição de uma sociedade civil que correspondesse a ela. Dessa maneira, Dany se converteu em uma líder autoritária, padrão de poder talvez avesso às culturas das cidades livres, e, passou a ter que lidar com movimentos de reação, tanto por parte de ex-mestres de escravos como dos próprios ex-escravos. Isso se manifestou em guerras e até mesmo em guerrilhas urbanas.
  Resta agora saber se, diante da crise, buscará se repactuar com estes segmentos sociais das cidades livres, ou se abandonará essa tentativa e seguirá os passos de seu antepassado Aegon, o Conquistador, levando seus dragões a Westeros e tomando o poder pelas guerras.
  Outra disputa importante é o domínio do Norte. A princípio, tudo está resolvido para Roose Bolton: tem a concessão real, o maior exército no território e uma falsa Arya Stark casada com seu filho. Por outro lado, sabemos como é forte o poder da família Stark na região, e basta o surgimento de um deles para que se reorganize um exército contra o rei. Há também a pretensão de Stannis. E indo mais longe, há que se pensar o impacto cultural que pode ter a aceitação do povo livre ao sul da Muralha. De toda maneira, penso que essa é uma questão decisiva para a resolução da história.
  Além de tudo isso, sem dúvida é interessante saber qual é o propósito dos Caminhantes Brancos, afinal configuram como uma parte importante do caos construído pelo autor. Todavia, penso que isso deva trazer revelações à história, mas não comprometer toda a sua resolução.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Um "neoencontro" com a Praça Seca

Para que o leitor se familiarize com o ambiente que descrevo, a Praça Seca é comumente descrita como um sub-bairro de Jacarepaguá, este sim um bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, mas que por suas dimensões distritais necessitava que se fossem descritas também suas sub-regiões. A Praça Seca não oferece muito atrativo ao turista, àquele que a fim de conhecer o Rio e seu povo está em busca de diversidade, lazer, belas paisagens. Poderia dizer que o nosso querido sub-bairro não tem muito a oferecer em nenhuma das áreas, mas a razão de merecer um artigo neste blog é o afeto com o qual tenho, assim como todos aqueles que como eu aqui nasceram e foram criados.
Adquire-se muito provincianismo ao morar em Jacarepaguá. Em geral, o mais longe que se vai é a Barra da Tijuca, e a carência de vivência nos espaços públicos não deixa muita alternativa à cultura de massa, boates e cinemas cujos filmes parecem escolhidos a dedos para nos manter alienados do que acontece no resto do mundo.
Como o nobre leitor deve ter percebido, eu, no entanto, nunca saí daqui. E, no entanto, gostaria de lhe falar sobre um reencontro que hoje tive com o bairro que nunca abandonei. Estaria equivocado, todavia, pois um encontro com algo que já foi nunca seria uma repetição, mas o passado reinventado, a prova maior do quão leviana é a nostalgia, e por isso então este seria um neoencontro, e não um reencontro.
Uma simples saída para comprar pão foi o suficiente. Há muito tempo que a Praça Seca não significa muito mais que isso para mim: um local onde se dorme, vai ao mercado, onde se faz coisas do cotidiano; as coisas mais significativas da vida tem estado mais distantes. Mas hoje encontrei Thiaguinho, antigo morador do Condomínio Residencial Florianópolis, que há muito tempo se mudou, assim como Daniel, Rodrigo, Mateus, Renato, assim como o futebol, que já não é mais na quadra, abandonada, coitada. Thiaguinho deve ser uns cinco anos mais novo que eu, o que na adolescência pode ser uma distância maior e ele na época parecia apenas um garoto confuso.
Mas eu estava distraído com meus pensamentos quando ele veio me cumprimentar efusivamente, com seu mesmo jeito apressado de falar. Demonstrou nostalgia similar a minha, e eu até então me mantinha um bocado lacônico. Perguntou o que eu estava fazendo da vida e eu respondi que se tratava de um mestrado em Ciências Sociais, já pronto para explicar do que se tratava (em geral isto é necessário), mas fui surpreendido ao ouvir que Thiaguinho gostava muito de "Sociologia... Antropologia e até História". "É mesmo? E por que você não faz?". "Não dá dinheiro", respondeu ele, e eu não poderia discordar. Mas para meu espanto ainda maior, ele argumentou que faculdade não deveria ser para ganhar dinheiro, como aparece nos anúncios da Estácio de Sá, segundo ele, com a mensagem "Compre seu diploma". Nada disso. Para ele faculdade é como um clube, trocamos conhecimento com outras pessoas, deveria ser para o crescimento pessoal.
Também me mostrou uma moeda que tinha com o rosto de Tiradentes, mudado para se assemelhar a Jesus Cristo. "O governo sempre manipulou as massas", disse. Parece que fora da Praça Seca ainda conseguimos fazer algumas descobertas, e isso sem dúvida é uma verdade para Thiaguinho. Ainda bem jovem, já foi casado e se separou. Mora sozinho em Nova Iguaçu e trabalha como frentista em um posto de gasolina. Um caminho um bocado diferente do meu, mas que o levou a impressões semelhantes às minhas. Sua confusão não deve ter acabado, mas sem dúvida o está ajudando a trilhar algum caminho, como eu espero também conseguir. E a cada conversa assim se animam minhas esperanças.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Discutindo o texto "Cem anos de Cultura e Anarquia"

A escolha desse pequeno texto de Raymond Williams pode parecer aleatória ao leitor, mas tem a grande pretensão de discutir alguns fenômenos da política no contexto da República, em especial alguma capacidade discursiva da classe dominante em defender valores humanistas, democráticos sem deixar de tomar as medidas necessárias para garantir que o povo esteja afastado das grandes decisões.
O texto data da década de 1960 e busca entender a influência da interessante figura de Matthew Arnold, que viveu cem anos antes do texto de Williams ser escrito. Sua coletânea de palestras havia se intitulado "Cultura e Anarquia" e soava como um manifesto do que deveria ser a política republicana inglesa.
Cultura e anarquia seriam dois opostos no pensamento de Arnold: os então sagrados direitos à democracia, tão comuns a seu tempo, não poderiam se estender às manifestações públicas no Hyde Park, essas representantes do caos, da desordem, da anarquia.

A ênfase de Arnold na cultura foi uma resposta direta à crise social daqueles anos, e o que ele viu em oposição à cultura foi a anarquia , em um sentido bastante similar a muitas descrições públicas recentes de manifestações e de movimentos de protesto. Ele não se via ou se apresentava como um reacionário, mas como um guardião da excelência e dos valores humanistas. Tanto naquele momento quanto hoje, essa é a força de seu apelo.(WILLIAMS,2011)

O que reside nesta reflexão de Williams é uma dura crítica ao discurso republicano ministrado pelas elites. Foram reprimidos os protestos em Hyde Park em 1860, no contexto onde se discutia se esses mesmos manifestantes deveriam ter direito a voto. Os mesmos valores inspirariam nova onda conservadora em 1960. Para nós, brasileiros em 2015, a figura de Matthew Arnold pode parecer bastante distante, no entanto o discurso oficial permanece sendo o de estranhamento às grandes manifestações de massa, e a "anarquia" aqui se converte em "vandalismo" e similares.
Em Arnold, e não apenas nele, esse conceito de cultura nada mais é que um par da da razão, do progresso e da ordem. Razão e progresso fariam bem à toda sociedade, de maneira que já não é mais um projeto de classe, mas um "desejo universal". Já a ordem deve ser mantida às custas de qualquer tipo de insatisfação.
O que poderia ser dito a Arnold é que desta "anarquia" se gera cultura. Talvez não a mesma que ele deseja, provinda dos hábitos diletantes de uma elite intelectual, mas a cultura como prática social, como a existência que proporciona novos saberes, e este sem dúvida é o caldo cultural para uma larga geração de jovens brasileiros, o legado de todo o processo que culminou e não terminou nas Manifestações de Junho: a construção de sujeitos coletivos, ativos e reivindicantes, e não mais passivos em relação à uma república distante. Às santificadas representações republicanas cabe não mais apropriar-se de uma pauta ou outra, mas o intenso mergulho nesta cultura, nesta "anarquia".

terça-feira, 29 de julho de 2014

Sobre Crivella e o perfil dos candidatos nessas eleições


Assisti ontem a entrevista do Crivella para a Bandeirantes. Foi bem didático para mim como muitos candidatos compõem suas plataformas eleitorais. Parece-me que pesquisas de opinião servem à montagem de um personagem, e consequentemente de um discurso.
Perguntado sobre qual seria a sua primeira ação enquanto governador, se eleito, Crivella respondeu na lata que seria resolver a lista de espera por cirurgias no sistema público de saúde, que estaria em torno de 12 mil, segundo ele. A segunda pergunta foi como ele resolveria esse problema, ao que respondeu: "Vou pedir ajuda do Governo Federal, vou fazer acordo com a iniciativa privada, não sei ainda como está o orçamento do Estado, não sei o que vou fazer, mas boa vontade não faltará, pode ter certeza!". Um bom cristão de boa vontade, pensei!
Perguntado sobre os professores, defendeu os "direitos democráticos " e a liberdade de se manifestar, mas defendeu punições contra os "terroristas", certamente no intuito de agradar setores para os quais pode ampliar seu eleitorado mas ao mesmo tempo garantir o seu voto conservador.
Perguntado sobre a UPP, sua crítica não passa por uma análise social da relação opressora que a polícia vem desenvolvendo com as comunidades, mas como elas "estão localizadas somente na Zona Sul", um certo senso comum que nem é real.
Perguntado sobre o ensino religioso, as posturas da bancada evangélica, os direitos dos homossexuais e se haveria um conflito da laicidade do Estado com a sua postura enquanto homem religioso, respondeu que não. Ele sabe "separar as suas convicções pessoais da sua postura enquanto governante", e "religião não tem nada a ver com política", o que particularmente me fez perguntar porque tantos pastores andam se interessando pela política. Disse também ser contra a intolerância religiosa e intolerância contra a opção sexual alheia, ele pessoalmente acredita que o "homossexualismo" é um pecado porque "ele acredita na Bíblia", mas "outros podem acreditar que acreditar na Bíblia seja um pecado". Mais uma vez uma estratégia de não perder o crédito com seu eleitorado evangélico e ao mesmo tempo se livrar do estigma que carrega.
Em resumo: o que pensa mesmo Marcelo Crivella? Difícil de saber. Opiniões construídas a partir de pesquisa de opinião, deve ser muito republicano ele. E assim vão se construindo as candidaturas, muito marketing, muito "republicanismo" e pouca divergência, pouco projeto de sociedade, de governo. Lamentável. Estou preferindo aqueles claramente associados a um grupo, aqueles com opiniões mais tangíveis. Aqueles que estão dispostos a fazer debates profundos sobre os problemas do Brasil.

sábado, 16 de novembro de 2013

Reflexões sobre o "Mensalão"

Não estou entre aqueles que estão arrancando os cabelos, ansioso, com as eleições de 2014. Não tenho medo de Aécio Neves, Marina da Silva nem de nenhum outro fantoche que as elites brasileiras pretendam forjar daqui até lá, pois confio que os partidos de esquerda de fato ganharam prestígio frente ao povo, que viu sua vida melhorar. O que me preocupa, para ser sincero, é a fetichização da política que a grande mídia vem construindo há algum tempo.
Digo isto porque, na minha humilde opinião, a discussão que se promove em torno de José Dirceu, Genoíno, os réus do "mensalão" e o PT se justifica exclusivamente por isso. Eu não acredito nos valores liberais de neutralidade, seja da imprensa, da Justiça, de quem for. Parece-me, ao contrário, que há só interesse neste caso. Não fosse assim já teríamos visto o ex-governador de SP, José Serra, sentado no banco dos réus a responder pelo escândalo do metrô, viríamos o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso respondendo pelos absurdos cometidos nas privatizações das estatais que aconteceram em seu governo. E veríamos tudo isto noticiado no Jornal Nacional, diariamente e com ênfase no papel repugnante que o PSDB, maior partido da direita no Brasil, tem nisso tudo.
Penso que tudo isto serve não ao olhar pragmático das eleições de 2014, pois como tática eleitoral já falhou várias vezes. O que há, na verdade, é uma construção subjetiva de que a política é para os safados. Assim, você cidadão de bem, trabalhador honesto, jovem com futuro, não deve se meter nesses assuntos, não deve se "sujar". Assim será retratada a estadia do PT na presidência da República nos livros de História. E assim farão com que os jovens acreditem que políticos são todos iguais, que não existe esquerda e direita.
Mas os políticos não são todos iguais, quanto a isso não há dúvidas. José Dirceu não é sequer semelhante a José Serra, ou a Paulo Maluf, ou a tantos outros. Ainda que seja condenado, não será igual a eles. Inclusive porque, reafirmo, o que está em jogo não é a condenação dele, pois a isso ele dá grandes demonstrações de não temer, já enfrentou prisão bem pior que essa. O que está em jogo é queimar uma História de lutas da esquerda. Esquerda essa que enfrentou a Ditadura Militar, que resistiu ao Neoliberalismo, sempre marchando ao lado do povo, e que chegando ao poder, fez mudar sua vida.
O PT não resolveu e nem resolverá, penso, todos os problemas do Brasil. Acho até que não se propõe a isso, uma vez que a conciliação de interesses norteia suas ações. Mas todas as conquistas até aqui devem ser louvadas, que sem a participação popular não seriam alcançadas. Parabéns ao Genoíno, Lula, Dilma! Parabéns Brizola, Miguel Arraes, Luís Carlos Prestes, Carlos Marighella, Jango, João Amazonas! Parabéns Zé Dirceu, parabéns PT! Seguimos em frente!

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

As manifestações, o Estado e os debates acerca da violência: uma contribuição singela

Creio haver um certo fetiche da violência nos debates que cercam as manifestações. Nada mais natural. Toda discussão moderna sobre o que é o "Homem", e aquilo que o diferencia dos outros animais se encerra no entendimento de que o homem produz cultura, se afastando do "estado de natureza" como diria Hobbes, e assim, ao se organizar em sociedade estaria buscando harmonia, se afastando do "estado de guerra", como quer Durkheim. Portanto, homens não deveriam ir "às vias de fato" em nome de seus interesses particulares, mas submetê-los à moral, aos valores que regem a sociedade.
Tudo isto leva a uma negação da força física como instrumento humano, apesar dela sempre ter sido um instrumento humano. Deverá então o Estado ter o monopólio da violência, afim de garantir a manutenção das leis, para que não se rompa os elos sociais. E o Estado é de fato violento, está em sua essência e não é nenhuma novidade. Felizmente, há também no pensamento humano os teóricos que enxergam os conflitos que movem a sociedade, recusando a perspectiva da harmonia. Assim, para Marx, o Estado não é este ente moral e neutro que garante a harmonia, pois a sociedade moderna, e algumas outras, se organizam em classes sociais. Há aqueles que são donos dos meios de produção, e há outros que só possuem sua força de trabalho. Neste conflito, não há como o Estado ser neutro, e para garantir a ordem muitas vezes é preciso que funcione como braço armado dos interesses dominantes. Neste caso, a luta dos dominados precisa se valer da violência enquanto instrumento de luta, mesmo que essa violência não seja legítima aos olhos da sociedade, já que só o Estado pode exercê-la. Porém, é importante destacar que a violência jamais pode escapar deste caráter de instrumento, e não se tornar o fim da luta, ao passo que é preciso que se atribua um fim à luta.
Quando debatemos a situação das Manifestações de Junho, que no Rio de Janeiro não pararam em junho, é preciso olhar à luz da história esse debate. Tampouco não é novidade que no Brasil o Estado é violento, mas é preciso entender que passos foram dados na luta do povo. Durante muito tempo se lutou, de forma violenta inclusive, para que se tivesse direito à fala nesse país e em toda a América Latina. A superação das ditaduras militares e a paulatina superação do neoliberalismo põe a luta do povo em outro patamar, sendo possível ir às ruas e expressar o que se deseja. É verdade que a implementação do programa liberal também ressignifica este ato de se expressar, uma vez que se esvaziaram os movimentos e partidos políticos e se coloca em xeque a possibilidade de representação, indo cada um às ruas com seus cartazes.
Não tenho qualquer problema com o novo. Ao contrário, sou entusiasta dele. No entanto, a inversão deste fetiche da violência, significa fetichizá-la, também. A negação do processo histórico, interpretações nas quais "ainda vivemos uma ditadura" e a separação entre pelegos e revolucionários que toma como medida o uso de escudos e paus ou não pode significar o esvaziamento da pauta política.
Não serei eu que condenarei o uso da violência, mas peço a mesma tolerância aos que enxergam a necessidade de outras formas de luta, que a conjuntura atual permite, devido a luta de outros que nos antecederam. A violência é física, mas também é simbólica e se expressa nas diversas formas de relação da vida social. Nas relações de trabalho, na construção do conhecimento, na padronização cultural, nas relações conjugais e familiares, etc. A cada uma dessas formas é preciso reagir, e estou convicto que com apenas paus e pedras não resolveremos essas contradições, mas sim com consciência coletiva e com a perspectiva de construção de uma nova sociedade, não apenas a velha remendada.

domingo, 18 de agosto de 2013

Um Olhar para o Estado Nacional



Texto escrito para a Tribuna de Debates do congresso do PCdoB

Para fazermos um debate acerca da disputa pelo poder e conjecturar sobre o Estado brasileiro, é preciso antes detectar como se entende o Estado Nacional moderno e o discurso liberal que se faz através dele e de seus aparelhos ideológicos, para então propormos uma visão de classe sobre o tema.
A ideia de uma nação em escalada linear rumo ao progresso, em benefício de todos os seus compatriotas, iguais entre si, ganharia a forma do Estado Nacional moderno, na visão do historiador Benedict Anderson, no século XIX. A nação, atemporal, é marcada por grandes acontecimentos e grandes heróis que tem sua importância para a consolidação de seu Estado Nacional, esse sim finito, datado.
É o marxismo que aponta a contradição deste discurso, apontando que é a luta entre classes antagônicas que move a História, e não uma parceria coletiva pelo desenvolvimento duma comunidade de iguais. Assim, o tão proclamado e defendido Estado uno brasileiro não pode ser entendido como se a qualidade de unidade fosse oriunda de sua essência, mas sim possui condicionantes históricos como o genocídio de indígenas, a repressão à cultura afro-brasileira. Assim planejou-se um Estado que mantivesse uma unidade inspirada em tradições européias, ainda que aspectos indígenas e africanos sobrevivam em nossa cultura dada a luta de resistência.     
Demarcada esta perspectiva de classe, podemos compreender que papel tem o PT neste processo de afirmação de um Estado Nacional brasileiro.
É notório que os governos petistas têm um caráter popular e que têm a marca do combate às desigualdades sociais através das políticas de elevação de renda e do investimento em programas sociais, (ainda que a estes deva ser feita à crítica dos malefícios da terceirização de seus serviços). É espantoso que milhares de famílias não tivessem acesso à energia elétrica em pleno século XXI, por exemplo, e o PT tem cumprido o papel de garantir o acesso às necessidades básicas de nosso povo, ainda que com debilidades nas áreas da saúde e da educação.
Por outro lado, a visão de inserção cidadã do governo ainda se limita à aquisição de padrão de consumo. O governo petista não cumpre o papel de subverter a visão de que o acesso à felicidade se dá pelo consumo pleno. Em última instância, o que está colocado é o que Marx descreve como a lei geral da acumulação capitalista, que é garantida pela extração cada vez maior do valor excedente do trabalho e o incentivo cada vez maior ao consumo da classe trabalhadora. O fim é o seu endividamento e a crise do sistema capitalista.
A ideologia do consumo, portanto, não é posta em xeque. É papel nosso questioná-la. No lugar do cidadão-consumidor, que com poder de compra vê-se como auto-suficiente, independente do outro, quase um Robinson Crusoé do mundo contemporâneo, precisamos reforçar a consciência coletiva, a necessidade de participação política, a identidade de classe trabalhadora. Quando fazemos o bom exercício de buscar entender a realidade brasileira, precisamos também colocar na balança os elementos de nossa cultura que apontam para uma consciência revolucionária. As recentes manifestações populares mostram a urgência da necessidade de organizar o povo, de construir pautas avançadas junto aos movimentos sociais. Avancemos em termos de democracia, para além do que rege a democracia liberal!
Deve estar ainda em nosso horizonte produzir conhecimento e memória autônomos. A mídia vem construindo uma memória do momento histórico brasileiro (e futuramente as instituições educacionais reproduzirão este discurso) que é antagônico à luta do povo e suas expectativas, já que nos vemos dando passos em termos de soberania. É preciso desenvolver estratégias eficazes na disputa dessa hegemonia, e é preciso que isto esteja no centro de nosso debate partidário!
Entendo o movimento que faz o Partido ao buscar ampliar seu espaço no parlamento, no poder político, no entanto, isto não pode significar o rebaixamento de nossa pauta política. É preciso pensar o partido de forma global, para a disputa do Estado, mas também dos movimentos, e, nesse sentido, precisamos dar passos largos ainda em termos de alcançar uma unidade política partidária.

ANDERSON, Benedict.  “Comunidades Imaginadas”. Companhia das Letras, 2008.
MARX, Karl. “A Lei Geral da Acumulação Capitalista” In: “O Capital”. Civilização Brasileira,
RIBEIRO, Darcy. “O Povo Brasileiro”. Companhia das Letras, 1995.